UM TEMPO PARA DOR

“A dor tem um elemento de vazio, não se consegue lembrar de quando começou, ou se houve um tempo em que não existiu (...)” Emily Dickinson.






Setembro é o mês escolhido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para falarmos de prevenção ao suicídio, um tema inquietante e complexo do qual não podemos nos apartar, pois seus impactos afetam a sociedade como um todo. Quando falamos em suicídio estamos falando essencialmente de dor, porque toda pessoa que pensa ou tenta o suicídio está evidentemente sofrendo, assim, quando ela não encontra formas de diminuir ou compreender esse sofrimento, que se torna insuportável, o suicídio parece ser a única saída - sua mente não encontra meios para simbolizar e elaborar experiências emocionais sentidas como aterrorizadoras. Dessa forma, entende-se por experiências emocionais aterrorizadoras aquelas que ameaçam tomar conta da mente, levando a pessoa a viver a sensação terrível de deixar de existir. Muitos de nós podemos passar por essa experiência em menor intensidade devido a traumas externos - como uma grande perda, guerras ou doenças graves.

Ademais, uma confusão mental também é muito comum no conflito da mente da pessoa que quer morrer, isso quer dizer que, a pessoa que quer morrer deseja também viver, ela deseja dar um fim à parte que dói, deseja uma nova vida na qual se sinta considerada e querida, quer estar num lugar imaginário onde não exista dor. Diante disso, o psicólogo, através de um trabalho psicoterápico, buscará meios de fortalecer a parte que deseja viver e, ao mesmo tempo, combater a que deseja morrer.

Os conflitos emocionais não dependem apenas dos traumas reais, mas também da sensibilidade própria de cada pessoa para lidar com os problemas da vida. Nesse sentido, é plausível entender que o trabalho psicoterápico com crianças e adolescentes seja um caminho promissor quando se fala em prevenção ao suicídio. Por outro lado, existe sempre um fator de maior evidência que leva a pessoa ao ato suicida, embora não devemos acreditar que exista apenas um motivo, pois o perfil psicológico é muito diferente em cada caso, ainda que se possa considerar a existência de certos grupos de maior risco. Segundo a OMS, existe um aumento nas taxas de suicídio entre adolescentes no Brasil e no mundo (dados de 2021), que nos leva a refletir o impacto de aspectos sociais neste contexto.

Assim, podemos pensar no conceito do sociólogo Zygmunt Bauman (1927-2017) sobre “modernidade líquida”, que nos dá notícias de uma sociedade contemporânea onde nada é sólido, principalmente os relacionamentos. Além disso, ele também se inspira em textos de Sigmund Freud como “O Mal Estar na Civilização” (1929) e “O Futuro de uma Ilusão” (1927), para nos alertar das angústias e inseguranças que vêem do individualismo, da lógica do consumo (alinhando-se ao modelo econômico neoliberal), onde só se é feliz quem pode consumir, quem não pode será excluído. Logo, o mal estar social apareceria na prevalência de vínculos humanos precários, deficiente em solidariedade, exaltando relações efêmeras onde o outro possui apenas uma “utilidade”, perdendo assim sua humanidade. Neste cenário, não haveria espaço para o amadurecimento emocional desejável – experiências verdadeiramente afetivas são facilitadoras do processo de amadurecimento.

Ainda mais, outras situações de conflitos como experiência de injustiça, fracasso, exclusão ou abuso, levam os adolescentes a regredirem emocionalmente – a capacidade ou incapacidade de sair desses conflitos dependerá de como vivenciou as experiências emocionais mais precoces, somado às características do meio social em que está inserido. Com isso, o trabalho psicoterápico ajudará o paciente a transformar sentimentos de desespero e desesperança, na medida em que proporcionará condições para a reorganização dos pensamentos, visando a diminuição dos impulsos agressivos e ampliando sua capacidade de avaliar as ações.

Portanto, ter um momento e um lugar para falar de dores, medos, desamparo e solidão é imprescindível.

“Agora preciso de tua mão,

Não para que eu não tenha medo,

Mas para que tu não tenhas medo.

Sei que acreditar em tudo isso será,

No começo, a tua grande solidão.

Mas chegará o instante em que me darás a mão,

Não mais por solidão, mas como eu agora: por amor”.

Clarice Lispector

Sendo assim, com estas breves considerações, espero poder abrir espaço para outras reflexões sobre este tema tão importante.


Fabíola Trajano Medeiros

Psicóloga Clínica, CRP: 06/06797

Especialista em Psicoterapia Psicanalítica de crianças e adultos.


Bibliografia:

Cassorla, R. M. S. (2017). Suicídio: fatores inconscientes e aspectos socioculturais: uma introdução. São Paulo, Editora Blucher.

Orientações para a atuação profissional frente a situações de suicídio e automutilação. (2020).

http://conselho.saude.gov.br/images/CRPDF- Orientacoes_atuacao_profissional.pdf .

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